A casa das sete mulheres - Letícia Wierzchowski

Título: A casa das sete mulheres
Autora: Letícia Wierzchowski
Editora: Bertrand
Páginas: 462

"Mil cavaleiros marchando oito dias sob a chuva. O frio desse continente lhes entra sob a pele como agulhas de gelo, o vento gruda no corpo os andrajos ensopados. A maioria tem os pés descalços, pisa na terra gélida que engole seus dedos como a boca ávida de um morto. O frio entrando pelas solas dos pés não é nada. Há uma força nesses homens. Há uma centelha de coragem que arde no peito de mui poucas criaturas sob esse céu. Que animus os move? Por qual sonho morreram tantos, nessa manobra e em outras da guerra? Qual o assombro que mantém viva a chama em seus olhos cansados, molhados de chuva, em sua carne faminta e emagrecida e mutilada? Há alguma coisa nesses homens. Algo de sobre-humano, de celeste, de bestial. Algo para além das fronteiras dessa carne. Vem do chão, viva energia que os alimenta a cada légua, que insufla em seus corpos a força para prosseguir contra todas as tempestades, a despeito do mais rigoroso dos invernos, esquecendo todas as derrotas. Os farroupilhas."


A Guerra dos Farrapos, ou Revolução Farroupilha (1835-1845) - a mais longa guerra civil do continente -, foi uma luta dos latifundiários rio-grandenses contra o império brasileiro. As complexas razões do levante - dentre elas, a abolição da escravatura - está nos livros de História que tanto já lemos na escola. E o que não está nesses livros, Letícia Wierzchowski nos conta muito bem, através da fantástica escrita deste romance. 

Com o início da guerra, o general Bento Gonçalves da Silva isolou as mulheres de sua família em uma estância bem afastada das áreas em conflito, com o propósito de protegê-las.

Assim, na manhã do dia 19 de Setembro de 1835, chegam à Estância da Barra, propriedade de D. Ana Joaquina da Silva Santos, uma das irmãs de Bento Gonçalves, a irmã caçula de Bento e D. Ana, Maria Manuela, e suas filhas Manuela, Rosário e Mariana; Caetana, esposa de Bento Gonçalves, sua filha mais velha, Perpétua, e seus outros quatro filhos pequenos. 

D. Antônia, a irmã mais velha dos Gonçalves, também deixou sua casa na Estância do Brejo para dirigir-se à casa da irmã, D. Ana, para receber sua irmã caçula, sua cunhada e todos os seus sobrinhos e sobrinhas. 

E foi a partir desse dia que a vida dessas sete mulheres, isoladas da guerra e de tudo o mais, começou a se transformar. 


Eu não tenho palavras boas o suficientes para começar esta resenha. Eu já tinha uma noção da história por causa da minissérie homônima transmitida pela Globo em 2003, que foi belíssima por sinal. 

Mas mergulhar na história através da escrita de Letícia Wierzchowski foi completamente diferente e uma experiência fantástica!

O que começa como uma feliz reunião de família, onde as sobrinhas adolescentes encontram-se emburradas por terem deixado os bailes da corte para se enfiar numa estância longe de tudo, torna-se uma experiência transformadora e sem volta para cada uma das pessoas dentro daquela casa. 

Para algumas, o sonho de encontrar o amor de sua vida foi realizado. Porém, nem todas tiveram a chance de viver esse amor "até que a morte os separe".

Mães e tias amorosas viram seus filhos e sobrinhos irem para a guerra como jovens nos últimos anos da adolescência e, 10 anos depois, voltarem - os que conseguiram - homens feitos, trazendo no peito e nos olhos a tristeza e a amargura da guerra com as quais teriam de conviver para sempre. 

Maridos foram mortos sem que pudessem se despedir de seus filhos e esposas, e outros, se não morreram na guerra, morreram depois dela, de tristeza.

A incrível jornada vivida por cada um dos personagens vai ficar marcada para sempre na minha memória. 

Rosário e Manuela - minha personagem preferida -, embora compartilhassem da mesma determinação de viverem seu amor da melhor maneira que pudessem, tiveram destinos bem diferentes, ambos tristes e ambos por amor. Ou loucura. Quem é capaz de distinguir?

Caetana viveu os piores desesperos que uma mulher pode viver, tendo seus homens - marido e filhos - na guerra. E, ainda assim, apesar de castigada pelos 10 anos da guerra, nunca deixou de acreditar neles e de ter fé. 

Giuseppe Garibaldi, com seu sorriso cativante e seu coração cheio de sonhos, sempre corajoso e disposto, lutava por uma pátria que, apesar de não ser a sua, foi a que lhe apresentou o amor da maneira mais profunda. 

D. Antônia, que começa no livro um pouco quieta, de poucas palavras, ressentida pela perda precoce de seu marido, muitos anos antes da guerra começar, chega ao final dele com mais alegria, mais leve e de coração mais compassivo, apesar das tragédias todas vividas por sua família.

Bento Gonçalves, nosso general protagonista, foi um herói tanto no começo, quando cada homem desejoso de que o império chegasse ao fim e que viesse a república, colocava sua vida em suas mãos e sob sua responsabilidade, convicto de que seria uma honra oferecer sua vida ou sua morte em prol desse sonho, quanto no fim, depois de tantos anos se cobrindo com o sangue de seus irmãos de revolução. 

Diferente das minhas outras resenhas, onde eu costumo falar sobre a história do livro de maneira geral, eu só pude contar rapidamente sobre de que se trata este romance e destacar minha admiração a alguns personagens. 

É impossível eu querer resumir aqui a história de cada um, com seus altos e baixos, suas alegrias e tristezas. E mais impossível ainda é descrever o que senti enquanto lia sobre todos eles. 

Assim que acabei a leitura e fechei o livro, minha vontade era a de abri-lo e começar tudo novamente. Ainda não estou preparada para me despedir desses personagens, desse cenário ou dessa trama em geral. Fico feliz porque ainda resta-me o consolo de ler, em seguida, os dois livros restantes da trilogia, que já tenho aqui. 

Para terminar esta resenha um tanto confusa e cheia de emoção, só posso dizer que A casa das sete mulheres é um dos melhores livros que já li na vida. Recomendo a todos os leitores, sem medo de errar. Tenho certeza de que dificilmente haverá alguém que não fique deslumbrado com este livro, senão pelo riquíssimo relato da Guerra dos Farrapos, pela maravilhosa e poética escrita de Letícia Wierzchowski, autora de quem eu me arrependo agora amargamente de nunca ter lido nada antes. 

Não só dou 5 estrelas para este livro, como torno-o um dos meus favoritos e recomendo a todo mundo. 






Mistério em Chalk Hill - Susanne Goga

Título original: Der verbotene Fluss
Autora: Susanne Goga
Editora: Jangada
Páginas: 424

"- O que há com você, Emily? Ainda está pensando na noite em que teve o pesadelo?Ela olhou para Charlotte como se estivesse voltando de uma viagem, cujas imagens ainda guardava.- De que pesadelos está falando?- Você sabe. - Charlotte puxou a cadeira para perto da carteira de Emily e se sentou a seu lado. - Quando sentiu medo e falou da sua mãe. - Não foi um sonho.  - Disse Emily em voz baixa, olhando de novo para a janela. - Ela estava aqui. "


Charlotte Pauly é uma preceptora alemã que, depois de um grande escândalo (não que eu tenha achado grande nem escândalo, mas é o que o livro diz), sente-se obrigada a deixar Berlim e ir para a Inglaterra. Por sorte, antes de partir ela fez um anúncio nos jornais londrinos e fora contratada de pronto, pois seu currículo era impecável. Assim, ao chegar à Inglaterra, ela segue para a mansão Chalk Hill, na parte rural de Londres, rumo ao seu novo emprego.

Chegando à mansão, ela percebe logo de cara que, com exceção do cavalariço que fora buscá-la na estação de trem, os criados – principalmente a governanta e Nora, a babá da menina que Pauly irá ensinar – não são muito receptivos à sua chegada. Aliás, seu próprio patrão, Sir Andrew, não é um exemplo de educação e simpatia. (Diz-se que sua hostilidade se deve ao fato de ele ter perdido sua jovem esposa recentemente, mas eu acredito que ele sempre foi chato e mal-educado assim mesmo.)

A filha de Sir Andrew, Emily, tem 8 anos e é a ela que Pauly irá dar várias aulas durante o dia. Emily é uma menina muito doce e sedenta por conhecimento. Se interessa muito pelas aulas de Pauly e faz muitas perguntas, mas, de vez em quando, essa menina tão doce e estudiosa dá lugar a uma Emily completamente diferente, cansada e distraída.

Com o passar do tempo, Pauly descobre (sozinha mesmo, porque ninguém conta nada a ela naquela casa) que Emily vem tendo pesadelos com a mãe. Bem, isso é o que Nora, a babá, e seu pai dizem, porque, segundo a própria Emily, o que acontece à noite é que ela é visitada pela própria mãe, que promete vir buscá-la logo.

Os dias vão passando e os pesadelos – ou visitas da mãe – tornam-se cada vez mais frequentes e mais assustadores, o que obriga Pauly a começar sua própria investigação, uma vez que todos são proibidos de tocar no assunto na mansão.

Quando uma coisa grave acontece, Sir percebe que não é mais possível fazer de conta que sua filha tem problemas e que realmente se faz necessário que ele peça ajuda profissional.
Preocupado e sem saber o que fazer, ele acaba indo até a famosa Society for Psychical Research, procurando alguém que possa ajudá-lo a descobrir qual o problema de Emily e se ela realmente vê espíritos.

O escolhido para essa empreitada é o jornalista Tom Ashdown (que, por algum motivo, eu só consigo imaginar com o rosto do John Cusak).

Tom é um excelente jornalista e já participa da Sociedade há bastante tempo. No entanto, essa é a primeira vez que ele é enviado para investigar um caso psíquico – ou não – , o que o deixa um pouco nervoso.

Junto com Pauly, ele tentará descobrir o que vem acontecendo em Chalk Hill para deixar Emily tão atormentada.


Eu ainda não consigo saber se gostei ou não do livro. Terminei a leitura, dei 3 estrelas no Skoob, mas ainda não consegui definir meus sentimentos a respeito de Mistério em Chalk Hill.

Quando pegamos o livro, logo na contracapa, já somos informados de que Susanne Goga inspirou-se no romance Jane Eyre, de Charlote Brontë, e na novela A volta do parafuso, de Henry James.

No entanto, mesmo se eu não tivesse sabido disso antes, com certeza teria percebido no decorrer da leitura.

Jane Eyre é um dos meus livros preferidos, então sempre está muito fresco na minha memória. A volta do parafuso é outra trama da qual ainda não consegui descobrir se gosto. Aliás, fiz a resenha recentemente sobre a novela.

Então, para mim, que já conhecia ambas as histórias, não houve surpresa nenhuma. Logo de cara eu já sabia a resposta do segredo em torno da morte da mãe de Emily.

Talvez, se eu não tivesse lido nenhum dos dois livros antes, a trama de terror/suspense se tornasse um pouco mais interessante pra mim.

A escrita de Susanne Goga é boa, não posso dizer que não é. Os personagens são bem construídos e o leitor consegue se conectar a eles. Apenas Nora, a babá, permanece uma incógnita pra mim, pois ainda não consegui concluir se ela é sonsa ou se é doida mesmo.

Mistério em Chalk Hill não é um livro ruim. No entanto, acredito que quem não leu Jane Eyre e A volta do parafuso, vai gostar bem mais do que quem já leu.



O sorriso da hiena - Gustavo Ávila

Título: O sorriso da hiena
Autor: Gustavo Ávila
Editora: Verus
Páginas: 266


“E foi assim que os olhos da sua mãe, que sempre conseguiram dizer tudo sem precisar de uma palavra sequer, silenciaram para sempre ao som de uma arma de brinquedo.”


O sorriso da hiena começa já numa cena muito tensa. Um casal e seu filho de 8 anos estão presos em casa, cada um amarrado em uma cadeira, e um homem usando uma máscara deixa bem claro que o terror está apenas começando. O pobre garoto vê seu pai tendo a língua arrancada com um alicate e morrendo sufocado com seu próprio sangue e, em seguida, sua mãe levando um tiro na cabeça. Seus pais foram assassinados, mas ele foi poupado. Ficou sozinho na casa, amarrado à cadeira, por uns dois ou três dias, até que alguém o encontrou e chamou a polícia.

Vinte e quatro anos depois, acontece um crime exatamente igual e Artur, detetive da divisão de homicídios, é chamado para o caso.

Depois de analisar a cena do crime, Artur tenta conversar com o garoto que foi encontrado ali, mas não obtém sucesso, pois a criança está traumatizada e possivelmente em choque. Assim, ele decide levar o menino até William, um renomado psicólogo da cidade, que é especialista em tratar de crianças.

O que Artur e William não esperavam, era que o assassino entraria em contato com o médico e lhe faria uma proposta irrecusável e que mais quatro casais estão prestes a perder sua vida e, por conseguinte, outras 4 crianças terão seus pais violentamente arrancadas de suas vidas.


Eu já havia lido algumas resenhas sobre esse livro há algum tempo, e todas elas eram muito elogiosas, o que me deixou bem curiosa. No entanto, depois de ler, acredito que minhas expectativas estavam muito altas. Na minha opinião, não foi aquilo tudo que todo muito dizia ser.

Gostei bastante do detetive Artur. De longe, ele foi o melhor personagem. O final do livro, apesar de ter sido surpresa pra bastante gente, eu já tinha previsto.

As crianças, que eram importantes na trama, a partir de certo momento, acabam ficando em segundo plano e não acompanhamos mais o que acontece com elas. Acho que esse ponto poderia ser melhor desenvolvido e explorado, o que deixaria a trama bem melhor.

Não achei um livro ruim, mas também não está na lista dos melhores que já li.


No entanto, recomendo pra quem gosta de tramas policiais. 


A volta do parafuso - Henry James

Título original: The turn of the screw
Autor: Henry James
Editora: Landmark
Páginas: 160
Conto


"Negra como a meia-noite em seu vestido escuro, sua beleza devastada e sua desgraça indizível, ela fitou-me por tempo suficiente para parecer afirmar que seu direito de sentar-se à minha mesa era tão legítimo quanto o meu de sentar-me à dela. Com efeito, enquanto duraram esses instantes, arrepiou-me a extraordinária sensação de que era eu a intrusa. Foi como num violento protesto a essa infâmia que, de fato tendo me dirigido a ela - "Sua mulher terrível e miserável!" -, pude ouvir-me prorromper num som que, através da porta aberta, ecoou pelo longo corredor e pela casa vazia. Ela voltou para mim como se houvesse me escutado, mas eu já me recompusera e desanuviara o ânimo. Não havia nada na sala no minuto seguinte, além da luz do sol e da compreensão de que eu precisava ficar."


A volta do parafuso é um conto de terror escrito por Henry James, publicado em 1989.

O conto começa com uma reunião de amigos que estão hospedados no campo, na noite de Natal, contando histórias de fantasmas. Porém, um dos membros do grupo, ao chegar sua vez de contar uma história, diz aos demais que ele prefere não contar nenhuma naquele momento, mas que mandará buscar em sua casa um diário, escrito por uma jovem que trabalhou para alguém de sua família no passado, que contém uma história real sobre fantasmas. Os demais do grupo concordam e assim esperam.

Alguns dias depois eles se reúnem novamente e o amigo, já de posse do diário, começa a ler o relato escrito em primeira pessoa.

A jovem – uma das filhas de um pároco – foi contratada como governanta por um rapaz solteiro e muito rico, que possuía uma casa no vilarejo de Bly e precisava de alguém para cuidar de seus sobrinhos, Miles e Flora, duas pobres crianças que ficaram órfãs e cuja responsabilidade passou para esse tio que não queria nem saber deles.

O mais curioso é que o rapaz, inclusive, deixa bem claro para a moça que ela terá total responsabilidade sobre as crianças e que ela deve resolver por si mesma todos os problemas que possam acontecer. Ele não quer saber de nada, não quer nem receber cartas relatando sobre como estão os dois. Ela será paga para cuidar deles enquanto puder, para que ele não precise mais se preocupar com eles de maneira nenhuma – não que se preocupasse. Enfim, feitos os devidos acertos com seu patrão, ela segue para Bly para conhecer seu novo lar e seus pupilos.

Ao chegar à propriedade, a jovem logo conhece Miles e Flora e acha ambos muito amáveis. Porém, uma coisa estranha acontece: depois de alguns dias, chega uma carta da escola onde Miles estudava – ele estava de férias –, dizendo que ele havia sido expulso da escola e que estava proibido de retornar. Tudo isso sem nenhuma explicação sobre o motivo da expulsão.

Como o tio das crianças a proibiu de entrar em contato e Miles é muito amável e sempre preocupado em agradá-la, ela decide guardar aquilo apenas entre ela e a outra empregada da casa, Mrs. Grose, e que no momento oportuno revelaria isso a Miles e lhe informaria que ela mesma cuidaria de sua educação.

O tempo vai passando e a governanta vai cada vez mais se apegando às crianças e ao lugar, mas, certa noite, enquanto caminhava pela propriedade, ela viu um homem estranho sobre uma das torres da casa, que, depois de olhá-la fixamente por alguns momentos, acabou desaparecendo. Mesmo achando estranho aquilo, ela acaba guardando o acontecido para si. No entanto, quando, em outra ocasião, acaba vendo o mesmo homem dentro da casa – e vendo desaparecer novamente –, ela procura por Mrs. Grose, conta o que houve e lhe descreve o homem.

Ao ouvir o relato da governanta, Mrs. Grove fica chocada e diz que o único homem com aquelas características que poderia estar na propriedade era Peter Quint, um antigo empregado, mas que era impossível que ele estivesse lá, pois ele já havia morrido há algum tempo. As duas combinam de manter isso em segredo e a governanta diz que vai investigar o que está havendo.

Pouco tempo depois, enquanto passeava com Flora perto do lago, a governanta vê outra figura misteriosa, mas agora era uma mulher, olhando fixamente para Flora, parecendo chamar sua atenção, mas a menina parece ignorá-la.

Procurando novamente por Mrs. Grose, a governanta descobre que a mulher foi a governanta anterior a ela, Srta. Jessel, e que também já havia morrido. Com isso, ela começa a pensar sobre o ocorrido e não consegue saber se Flora ignorava a mulher porque não a via, ou porque já estava tão acostumada a ela que não se importava mais.

A partir daí a governanta começa a suspeitar de que as crianças podem ver e até se comunicar com esses espíritos, principalmente porque, toda vez que ela os vê – o que vem se tornando muito frequente –, eles estão rondando seus protegidos.

Decidida a salvar seus pupilos, a governanta começa a investigar tudo e tenta, a todo custo, descobrir se eles são capazes de ver esses espíritos e se comunicar com eles.


É claro que não vou contar o final do conto, até porque ele fica meio em aberto para que o leitor entenda esse fim como achar melhor.

À primeira vista, A Volta do Parafuso é um conto de terror normal sobre casas antigas e aparições sombrias, mas o conto acaba sendo bem mais que isso, o que o torna muito legal. Primeiro, porque percebemos uma histeria crescente na governanta, que parece estar obcecada com a ideia de que as crianças têm alguma ligação com os espíritos que rondam a casa.

As crianças, Miles em particular, são bem estranhas. Fazem absolutamente tudo para agradar a governanta e são tão amáveis que nem parecem crianças de verdade. Miles, apesar de ter apenas 9 anos, é tão encantador e manipulador que parece muito mais velho.

A governanta tem seus vinte e poucos anos, está presa numa propriedade rural, tendo apenas duas crianças e uma senhora por companhia, e, devemos lembrar, é filha de um pároco, o que nos dá a entender que ela tem suas crenças religiosas. Acho que tudo isso a torna uma pessoa sugestionável e que se impressiona com facilidade.

A verdade é que não dá pra saber se as crianças realmente viam os espíritos ou se apenas a governanta conseguia vê-los. E há ainda a hipótese de que ela nunca viu espírito nenhum e que teria enlouquecido. Daí vem o nome do conto, A Volta do Parafuso. Essa expressão – The turn of the screw – é usada, em inglês, para se referir à ação de aumentar a pressão sobre alguém que já se encontra em posição aflitiva. E isso é bem claro em duas partes distintas: primeiro, a pressão sobre a própria governanta, que vai cada vez ficando mais histérica a respeito dos tais espíritos e, segundo, porque ela passa a pressionar as crianças loucamente, querendo que elas confessem de todo jeito, que se comunicam com os espíritos. E ela fica tão alucinada com tudo isso que passa acreditar que apenas ela pode salvá-los, tanto que ela mesma chega a afirmar que, se eles admitirem que veem os espíritos, eles serão perdoados e suas almas serão salvas.

Várias são as interpretações que podemos ter sobre esse conto, inclusive trazendo à tona sutilmente o assunto pedofilia, que talvez tenha acontecido, não por parte da governanta, mas dos antigos empregados da casa que agora são os espíritos.

Henry James escreveu-o de maneira tão intrigante que, como eu já disse, cada leitor poderá entender o final do conto de uma maneira.

Enfim, se eu falar mais do que isso – o que já foi muito –, vou acabar dando spoilers. O conto pode ser encontrado facilmente na internet, então, quem se interessar, pode procurar pra ler. Depois me contem o que acharam, qual o final que vocês entenderam na história.

Mais do que uma história de fantasmas, é o terror psicológico que assusta mais. Eu recomendo a leitura! 






A Porta dos Leões: nas linhas de frente da Guerra dos Seis Dias - Steven Pressfield

Título original: The Lion's Gate: On the Front Lines of the Six Day War
Autor: Steven Pressfield
Editora: Contexto
Páginas: 478

"Assim era Sharon. Ele aspirava à grandeza. Não precisava pregar. Ele fazia você sentir que a segurança, a honra, a sobrevivência da nação, e mesmo a dos judeus pelo mundo, estavam sobre os ombros dele. Desistir ou dar as costas antes de completar uma missão era algo impensável na Unidade. Era preferível cortar um braço. Se estou rastejando numa trilha à noite, sozinho ou com outros soldados, e avisto cinco ou sete homens da Legião Árabe da Jordânia se aproximando na direção oposta, prefiro enfrentar a morte do que voltar para encarar Sharon e ter que lhe dizer algo como: 'Eles eram muitos, não havia o que pudéssemos fazer'. Esse espírito é o que você vê hoje. Apossou-se do Exército inteiro. Esse espírito herdamos de Sharon, de mais ninguém".



Em 1967, o Egito expulsou as forças de paz do Sinai e assentou suas próprias defesas preparadas para uma invasão a Israel. Discursos inflamados eram ouvidos de todas as nações árabes na vizinhança, e suas forças estavam se preparando para varrer Israel do mapa. Mesmo assim, com todas as probabilidades contra os israelitas, eles atacaram seus inimigos de uma maneira que eles jamais esperaram.  

Em 5 de Junho de 1967, Israel atacou primeiro, destruindo a força aérea do Egito em questão de horas e então avançando para expulsar os egípcios do Sinai. Uma semana depois, quando a poeira baixou, Israel ocupou o oeste do rio Jordão, a faixa de Gaza, o Sinai, Jerusalém e a maior parte das Colinas Golã. Independentemente de quem estivesse certo ou errado naquela guerra, essa foi uma grande conquista. Pela primeira vez desde a destruição do templo no ano 70 d.C., a cidade de Jerusalém estava novamente sob o comando judeu.  

Mais uma vez, Steven Pressfiled faz um trabalho primoroso ao relatar os fatos acontecidos durante a Guerra dos Seis Dias. No entanto, o livro não traz uma narrativa romanceada como, por exemplo, em Portões de Fogo (que continua sendo meu livro preferido do autor até agora). Neste livro, o autor entrevistou vários membros de três unidades (um esquadrão da Força Aérea Israelita, a Companhia de Reconhecimento e o Batalhão de Paraquedistas) e seu objetivo era juntar material não sobre os grandes feitos realizados durante a guerra, mas sobre as experiências individuais das pessoas que lutaram nela. Pressfield, mais uma vez, mostra-nos uma guerra sob a perspectiva dos soldados.

Para isso, ele conduziu mais de 400 horas de entrevistas com 63 sobreviventes da guerra e a narrativa se dá quase que inteiramente pelas vozes deles. Em A Porta dos Leões, nós lemos sobre o que eles viram e ouviram durante a guerra e, de alguns veteranos, ainda recebemos informações sobre suas experiências em 1957 e 1948.

O livro todo é muito, muito interessante, mas as partes que eu mais gostei foram o ataque surpresa que destruiu a Força Aérea egípcia e a tomada de Jerusalém. Foi muito emocionante acompanhar esses acontecimentos pelo ponto de vista dos soldados que participaram desses eventos.

Israel tinha apenas quatro aviões, todos melhorados para carregarem uma bomba cada.  No ataque surpresa, cada campo de aviação egípcio foi alvejado por um avião cujo piloto havia sido treinado exaustivamente a melhor maneira de atacá-los. Cada avião seguia uma altitude específica, bem baixa, para acertar o seu alvo, cuidadosamente evitando ser captado pelo radar.  

Assim, os pilotos faziam as manobras corretas para que as bombas, ao caírem, explodissem de maneira que fizessem o maior estrago possível. Depois, eles retornavam para suas bases para abastecer os aviões, e tornavam a sobrevoar o assentamento egípcio para um novo ataque. Dessa maneira, os egípcios acreditavam que a força aérea israelita era muito maior do que a deles.

Eu poderia escrever parágrafos e mais parágrafos comentando sobre as partes mais emocionantes do livro, mas aí a vontade de comprar o livro e ler perderia toda graça. :)

Apesar de o livro ser o resultado de vários relatos de sobreviventes, o autor tomou certas liberdades, como ele mesmo relata na introdução. Quando faltava algum detalhe em um dos relatos, ele usava de sua criatividade, mas sempre baseando-se no que já conhecia sobre a guerra e no que sabia a respeito das pessoas que lhe forneciam tais relatos.  

Eu fiquei realmente encantada com A Porta dos Leões! Minha noção de Israel era apenas aquela que a maioria tem: a pobre nação que foi subjugada pelos egípcios por muitos anos e depois libertada com a ajuda de Moisés. Sempre sob a perspectiva bíblica, nunca a política, real.

Enfim, para todos os que se interessam por História, ou gostam de um bom livro escrito com maestria, A Porta dos Leões é leitura obrigatória.  


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Até a próxima! :)
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